Vagando em versos

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Notas sobre ela


                 Os exageros 
                 moram em sua pele

                 As intensidades
                 estão na sua essência

                 No mar da sua alma
                 acontecem tempestades selvagens
                 belas e insanas

                 Relâmpagos apaixonados
                 ferem e iluminam tudo

                 Já tentou não se importar
                 não se conectar
                 mas, a entrega é o seu respirar

                 Corre pelas estradas desconhecidas
                 tropeça em cadarços e esperanças
                 mas é fiel a si

Zack Magiezi

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Não dá para viver sem um truque


Não dá para viver sem um truque. 
A noite, enquanto espera o sono
esboce novos planos que lhe tragam
se não a glória
pelo menos o suficiente
para continuar a fazer novos planos
para um amanhã.
Pode ser um amanhã simples
modesto, que seja apenas um amanhã.

Carlos Heitor Cony

Papel em branco




Fatigado esperas um dia
em que o tempo comece de novo.
O passado se esfumando por mágica
e voltas a ser prancheta vazia.
Tua vida rescrita
em límpido couche.
Aguardas teu dia de remissão,
teu segundo nascimento,
não um sinal no calendário,
mas um dia em que a vida exala
um ar de pureza e frescor
e as esperanças não resultam inúteis,
os problemas são objetos solúveis
e há um excelente motivo
para continuar a viver.
Que impulso te compele a esta busca,
a esse brilho nos olhos
que te faz tão humano
e nos faz tão iguais
na espera desse dia:
Quem não o espera?

Radamés Manosso

O Amor verdadeiro


terça-feira, 24 de outubro de 2017

Quando eu sonhava




Quando eu sonhava, era assim
Que nos meus sonhos a via; 
E era assim que me fugia
Apenas eu despertava
Essa imagem fugida
Que nunca pude alcançar.
Agora, que estou desperto
Agora a vejo fixar...
Para quê? - Quando era vaga
Uma ideia, um pensamento
Um raio de estrela incerto
No imenso firmamento
Uma quimera, um vão sonho
Eu sonhava - mas vivia:
Prazer não sabia o que era
Mas dor, não na conhecia...

Almeida Garrett

Poeira




Poeira leve, a vibrar as moléculas: poeira
Que um pobre sonhador, à luz da Arte, risonho
busca fazer faiscar: pó, que se ergue à carreira
do Mazepa do Amor pela estepe do Sonho.

Para ver-te subir, voar da crosta rasteira
da terra, a trabalhar, todas as forças ponho:
e a seguir teu destino, enlevada, a alma inteira
o teu ciclo fará, seja suave ou tristonho.

Não irás, com certeza, alto ou distante. O insano
pó não és que, a turvar o céu claro da Itália
traz o vento, a bramir, do deserto africano:
que és o humílimo pó duma estrada sem povo
Que, pisado uma vez, pelo ambiente se espalha
Sente um raio de Sol, cai na terra de novo.


Humberto de Campos

Consciência


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O Amor


Formosa Vênus


Formosa Vênus
filha do mar e do rei do Olimpo
 que ressentimento tens contra nós? 
Por que deste a vida a tal flagelo
Cupido, o deus feroz, impiedoso, 
cujo espírito corresponde tão pouco
 ao encantos que o embelezam? 
Por que recebeu asas e o poder de lançar setas
a fim de que não pudéssemos
safar-nos dos seus terríveis golpes?

Bíon

A lição é simples


*

A lição é simples.
Amar é viver ousando
acreditando que algo mais
pode ser feito.

Gabriel Chalita

domingo, 22 de outubro de 2017

A Toca da Serpente


A Quale strazio



a que tormento a vida me reduz
amor que obscuro o claro sol me prende
e no meu peito ao renascer acende
maior desejo da perdida luz!



beleza que a natureza nos produz
que tanto agrada a quem não dela entende
mais minha paz me tolhe e mais me ofende
que a mais quentes suspiros me conduz.



se verdes prados e se flores miro
privada de esperanças. me arreceio
pois reverdece a ideia daquel fructo



que a morte me colheu. Do grave seio
ela tirou brevíssimo suspiro.
e a mim deixou-me o amargo e eterno luto.


Vittoria Colonna

Trabalhos de amor perdidos


Mas o amor
primeiro aprendido em uns olhos de mulher
não vive sozinho fechado na cabeça
mas, com a agilidade de todos os elementos
corre com a rapidez de nossos pensamentos
e dá a cada faculdade dupla potência
acima de suas funções e seus ofícios.

Acrescenta preciosa visão aos olhos
Os olhos de um amante vêem mais longe que uma águia

Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som
que passa despercebido ao ladrão cauteloso

O tato do amor é mais fino e sensível
que as sensitivas antenas do caracol

Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.

Pela coragem, não é o amor um Hércules
ainda galgando as árvores nas Hespérides?

Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo
Encordoado com seus cabelos

E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
deixa os céus estonteados com a harmonia.

Nunca deve o poeta tocar um pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.

William Shakespeare

Que vida!


A Eternidade



De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Alma sentinela
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas
Das palmas e vaias
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma
Brasas de cetim
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Arthur Rimbaud

Mors-Amor



Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente
Formidável, mas plácido, no porte
Vestido de armadura reluzente

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a Morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"


Antero de Quental

Que mimo!



Tu és morena e sublime
Como a hora do sol posto.
E, no crepúsculo eterno
Que te envolve o lindo rosto,
O céu desfolha canduras
De alvoradas e jasmins,
E passam roçando n'alma
As asas dos querubins...

Teu corpo que tem o cheiro
De cem capelas de rosas,
Que t'enche a roupa de quebros,
De ondulações graciosas,
Teu corpo derrama essências
Como uma campina em flor:
Beijá-lo!... fôra loucura;
Gozá-lo!... morrer de amor...


Tobias Barreto

Ninguém perde um amor


Tendência romântica


O Som


Cada som
nasce no silêncio
e morre 
no silêncio.

Eckhart Tolle

Perdoar


Perdoar
é não oferecer
resistência
à vida...
é permitir
 que a vida aconteça
através 
de você.

Eckhart Tolle

Nada é o que parece ser


Nada é o que parece ser.
O mundo que você criou e vê 
através da mente 
pode parecer
um lugar bem imperfeito
até mesmo um vale de lágrimas.
Mas o que quer que você perceba
é somente uma espécie de símbolo
como uma imagem em um sonho.

Eckhart Tolle

Brincar de Viver




A arte de sorrir
cada vez que o mundo diz: 
NÃO

Guilherme Arantes

Chuvas de cinzas


[...] 

Hora crepuscular - concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.


Gilka Machado

A Vida tem dessas coisas




[...] 
Desde aquela noite
eu nunca mais me entendi
Você levou meu coração
Levou o meu olhar
Eu sigo cego e infeliz 
Querendo te encontrar

Pra conversar
Te convencer
Te confessar
Quero só você

[...] 

Sei que isso não tem importância
Pra você não faz sentido
mas a noite
aumenta a distância
Me perdi no teu caminho
me encontrei falando sozinho
sigo sempre sem destino
pra te encontrar

[...] 


[Nostalgia]

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Lápide 1 - epitáfio para o corpo

*

aqui jaz um grande poeta.
nada deixou escrito.
este silêncio, acredito
são suas obras completas.

Paulo Leminski



Pink Floyd - Dark Side Of The Moon


Lápide 2 - epitáfio para a alma

**

aqui jaz um artista
mestre em desastres

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte

deus tenha pena
dos seus disfarces.

Paulo Leminski


Birdy - Shelter 

Devagarinho


            Devagarinho
            a gente 
            começa 
            a sentir 
            que algo 
            precisa ser feito.

            
                   Ana Jácomo

Se houver amor em sua vida


Abandono




Ai! 
Dessa noite o veneno 
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio 
Que ficou em teu lugar 
E ao menos ouves o vento 
E ao menos ouves o mar.

* *

Amália Rodrigues

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Que estranha forma de vida


Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente
coração que não comando:
vive perdido entre a gente
teimosamente sangrando
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
para, deixa de bater.
Se não sabes onde vais
porque teimas em correr
eu não te acompanho mais.

Amália Rodrigues

Canção da Estrela Polar


Na estrada do Acaba-Mundo
somente a estrela polar.
Vi a morte: fui ao fundo.
Na estrada do Acaba-Mundo
nenhum mar.

Nenhum mar? Nenhum deserto.
Nenhum sopro, nem luar.
Longe, os anjos. Muito perto
o mundo, a meus pés aberto.
Nenhum mar.

Volta e meia a estrela ria.
De mim? De ti? Do luar?
O luar não existia.
Eu morrera. E a noite fria...

Somente a estrela polar.

Alphonsus de Guimarães Filho

Minha única diferença


Recordações


Presa do ódio






Da tu'alma a funda galeria
descendo às vezes, eu às vezes sinto
que como o mais feroz lobo faminto
teu ódio baixo de alcatéia espia.

Do desespero a noite cava e fria
de boêmias vis o pérfido absinto
pôs no teu ser um negro labirinto
desencadeou sinistra ventania.

Desencadeou a ventania rouca
surda, tremenda, desvairada, louca
que a tu'alma abalou de lado a lado.

Que te inflamou de cóleras supremas
e deixou-te nas trágicas algemas
do teu ódio sangrento acorrentado!

Cruz e Sousa

Floresce



Últimos Sonetos


Floresce, vive para a Natureza
para o Amor imortal, largo e profundo.
O Bem supremo de esquecer o mundo
reside nessa límpida grandeza.

Floresce para a Fé, para a Beleza
da Luz, que é como um vasto mar sem fundo
amplo, inflamado, mágico, fecundo
de ondas de resplendor e de pureza.

Andas em vão na Terra, apodrecendo
à toa pelas trevas, esquecendo
a Natureza e os seus aspectos calmos.

Diante da luz que a Natureza encerra
andas a apodrecer por sobre a Terra
antes de apodrecer nos sete palmos!

Cruz e Sousa