Vagando em versos

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segunda-feira, 1 de junho de 2020

O Gato


“Ninguém em toda natureza aprendeu a bastar-se a si mesmo como o gato.”
Artur da Távola

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

A Alma dos diferentes



Diferente não é quem pretenda ser.
Esse é um imitador do que ainda
não foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado
de alguns mais e de alguns menos em hora
momento e lugar errados para os outros.
Que riem de inveja de não serem assim.
E de medo de não aguentar
caso um dia venham, a ser.

O diferente é um ser
sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato.
Mas é sempre confundido
por pessoas menos sensíveis e avisadas.
Supondo encontrar um chato
onde está um diferente
talentos são rechaçados; 
vitórias, adiadas;
esperanças, mortas.

Um diferente medroso, este sim
acaba transformando-se num chato.
Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes
percebem porque os outros não os entendem.
Os diferentes raivosos acabam
tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.
Diferente que se preza entende
o porque de quem o agride.

Se o diferente se mediocrizar,
mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar
- mesmo sem querer - alterando algo
ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.

O diferente suporta e digere
a ira do irremediavelmente igual:
a inveja do comum; o ódio do mediano.
O verdadeiro diferente sabe que nunca
tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo
já no primário, onde os demais de mãos dadas
e até mesmo alguns adultos por omissão
se unem para transformar o que é
peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura.

O que é percepção aguçada em:
"Puxa, fulano, como você é complicado".
O que é o embrião de um estilo próprio em:
"Você não está vendo como todo mundo faz?"

O diferente carrega desde cedo
apelidos e marcações os quais acaba incorporando.
Só os diferentes mais fortes
do que o mundo se transformaram
(e se transformam)
nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe
do que o consenso.
O que sente antes mesmo
dos demais começarem a perceber.

Diferente é o que se emociona enquanto
todos em torno agridem e gargalham.
É o que engorda mais um pouco
chora onde outros xingam
estuda onde outros burram.
Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem.
Sonha entre realistas.

Concretiza entre sonhadores.
Fala de leite em reunião de bêbados.
Cria onde o hábito rotiniza.
Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica
doendo onde a alegria impera.
Aceita empregos que ninguém supõe.
Perde horas em coisas
que só ele sabe ser importantes.
Engorda onde não deve.
Diz sempre na hora de calar.
Cala nas horas erradas.
Não desiste de lutar pela harmonia.
Fala de amor no meio da guerra.
Deixa o adversário fazer o gol
porque gosta mais de jogar do que de ganhar.

Ele aprendeu a superar riso
deboche, escárnio, e consciência dolorosa
de que a média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão:
enfermos, paralíticos, machucados,
engordados, magros demais,
inteligentes em excesso, bons demais
para aquele cargo, excepcionais, narigudos
barrigudos, joelhudos, de pé grande
de roupas erradas, cheios de espinhas
de mumunha, de malícia ou de baba.
Aí estão, doendo e doendo,
mas procurando ser, conseguindo ser
sendo muito mais.

A alma dos diferentes
é feita de uma luz além.
Sua estrela tem moradas deslumbrantes
que eles guardam para os pouco capazes de
os sentir e entender.

Nessas moradas
estão tesouros da ternura humana.
De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente.
A menos que você seja suficientemente
forte para suportá-lo depois.

Artur da Távola

sábado, 29 de julho de 2017

Como aprender a amar bonito

     

     Ter razão é um perigo: em geral, enfeia um amor
     pois é invocado com justiça, mas na hora errada. 
     Amar bonito é saber a hora de ter razão. 
     Ponha a mão na consciência. 
     Você tem certeza de que está fazendo o seu amor bonito? 
     De que está tirando do gesto, da ação, da reação, 
     do olhar, da saudade, da alegria do encontro, 
     da dor do desencontro a maior beleza possível? 
     Talvez não. 
     Cheio ou cheia de razões, você separa do 
     amor apenas aquilo que é exigido por suas 
     partes necessitadas, quando talvez dele 
     devesse pouco esperar, para valorizar 
     melhor tudo de bom que de vez em quando 
     ele pode trazer. 
 
     Quem espera mais do que isso sofre e, sofrendo, 
     deixa de amar bonito. 
     Sofrendo, deixa de ser alegre, igual, irmão, criança. 
     E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.
 
     Não tema o romantismo. 
     Derrube as cercas da opinião alheia. 
     Faça coroas de margaridas e enfeite a 
     cabeça de quem você ama. 
     Saia cantando e olhe alegre. 
     Recomenda-se: encabulamentos, ser pego em
     flagrante gostando, não se cansar de olhar e olhar, 
     não atrapalhar a convivência com teorizações, adiar
     sempre -- se possível com beijos -- 'aquela 
     conversa importante que precisamos ter', arquivar, se 
     possível, as reclamações pela pouca atenção
     recebida. 
      
     Não teorize sobre o amor, ame. 
     Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.
 
     Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, 
     como: a sinceridade, abrir o coração, contar a 
     verdade do tamanho do amor que sente; não dar
     certo e depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito).
     Jogue por alto todas as jogadas, estratagemas, 
     golpes, espertezas, atitudes sabiamente eficazes (não
     é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de 
     sua emoção e carência, exatamente aquele você que a 
     vida impede de ser. 

     Seja você cantando desafinado, mas todas as manhãs. 
     Falando besteiras, mas criando sempre.
     Gaguejando flores. 
     Sentindo o coração bater como no tempo de Natal infantil. 
     Revivendo os caminhos que intuiu em criança. 
     Sem medo de dizer eu quero, eu estou com vontade. 
     Deixe o seu amor ser a mais verdadeira expressão 
     de tudo que você é.
 
     Se o amor existe, seu conteúdo já é manifesto. 
     Não se preocupe mais com ele e suas definições. 
     Cuide agora da forma. 
     Cuide da voz. 
     Cuide da fala. 
     Cuide do cuidado. 
     Cuide de você. 

     Ame-se o suficiente para ser capaz de gostar do amor 
     e só assim poder começar a tentar fazer o outro
     feliz.

Artur da Távola