Vagando em versos

domingo, 24 de setembro de 2017

Os bens maiores



O que ficou
além do enlace
é o que mais foi
preso pelo gesto.

O que não foi
tocado é o que
deixou sua marca
mais nítida na mão.

A gaiola vazia
é onde habita
o que há de mais belo
em gorjeio e pássaro.


Ruy Espinheira Filho

Testamento do homem sensato






Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda
surgir uma lembrança desgarrada
ave que nasce e em voo se arremeda

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada
como uma luz, mais que distante, breve.

Carlos Pena Filho

Luas



todo pretérito
é sempre
mais que perfeito


nenhum soluço
cabe inteiro
dentro do peito

emanações do 
passado 
despertam luas


lindas e nuas
que só se despem
do outro lado


Carlos Machado
em "Tesoura cega"

Alma desnuda

Imagem: Favim


Soy un alma desnuda en estos versos
Alma desnuda que angustiada y sola
Va dejando sus pétalos dispersos.


Alfonsina Storni

Domingo no parque II




-Poeta, é domingo de novo! - diz-me o pássaro.
-Verdade? - pergunto.
-Sim!
-Vamos esquecer, embora seja o primeiro domingo da Primavera.

Poeta Álvaro Faria

@Alvaro_de_Faria



Gwen Guthrie - You Touched My Life

O Amor



Creio


Djavan - Luz


Silêncio


Djavan - Cigano 


Delicadezas


Djavan - Eu Te Devoro


E por vezes



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

Guns N' Roses - Patience

O Mistério do sem fim





No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E no planeta um jardim
e no jardim, um canteiro
no canteiro, uma violeta
e sobre ela, o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

Guns N' Roses - Welcome To The Jungle 

sábado, 23 de setembro de 2017

Atrasos do acaso






atrasos do acaso
cuidados
que não quero mais

o que era pra vir
veio tarde
e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz



Paulo Leminski


Ivan Torrent - Rêverie




Solitário




Como um fantasma que se refugia
Na solidão da natureza morta

Por trás dos ermos túmulos, um dia
Eu fui refugiar-me à tua porta!

Fazia frio e o frio que fazia
Não era esse que a carne nos conforta…
Cortava assim como em carniçaria
O aço das facas incisivas corta!

Mas tu não vieste ver minha Desgraça!
E eu saí, como quem tudo repele
-Velho caixão a carregar destroços-

Levando apenas na tumbal carcaça
O pergaminho singular da pele
E o chocalho fatídico dos ossos!


Augusto dos Anjos

Thomas Bergersen - Into Darkness

Despedidas




Começo a olhar as coisas
como quem, se despedindo, se surpreende
com a singularidade
que cada coisa tem
de ser e estar.
Um beija-flor no entardecer desta montanha
a meio metro de mim, tão íntimo
essas flores às quatro horas da tarde, tão cúmplices
a umidade da grama na sola dos pés, as estrelas
daqui a pouco, que intimidade tenho com as estrelas
quanto mais habito a noite!
Nada mais é gratuito, tudo é ritual
Começo a amar as coisas
com o desprendimento que só têm
os que amando tudo o que perderam
já não mentem.


Affonso Romano de Sant’Anna


Thomas Bergersen - Illusions

Catando os cacos do caos



[...]

Catar palavras cortantes

no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.

É um quebra-cabeça?

Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção

Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim

Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.

Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora


Affonso Romano de Sant’Anna


Thomas Bergersen - Two Steps From Hell - Blackheart

Diálogos


[...]

 Mas eu não quero me encontrar com gente
louca, observou Alice.
 Você não pode evitar isso, replicou o gato.
Todos nós aqui somos loucos.
Eu sou louco, você é louca.
Como você sabe que eu sou louca?
 indagou Alice. 
Deve ser, disse o gato, ou não estaria aqui.


Lewis Carroll
Em: Alice no País das Maravilhas

Excentricidades


Imagem: Seb Janiak

cada pessoa, suponho, tem
suas excentricidades
mas em um esforço para parecer
normal
aos olhos do
mundo
elas as superam
e desse modo
destroem seu
algo a mais.

Charles Bukowski

Sem chance de ajuda



há um lugar no coração que
nunca será preenchido

um espaço

e mesmo nos
melhores momentos
nos melhores
tempos

nós saberemos

nós saberemos
mais que nunca

há um lugar no coração que
nunca será preenchido
nós iremos esperar
esperar

nesse
lugar.


Charles Bukowski

Quando a dor se transforma em poema II



Vazia das palavras que a dor roubou
a alma se volta para os poetas.

Não, na verdade não é bem assim.
A alma não se volta para nada.

Ela está abraçada com a sua dor.
São os poetas que vêm em nosso auxílio
mesmo sem serem chamados.

Pois essa é a vocação da poesia:
pôr palavras nos lugares onde a dor é demais.

Não para que ela termine
mas para que ela se transforme em coisa eterna:
uma estrela no firmamento
brilhando sem cessar na noite escura.

É isso que o amor deseja:
eternizar a dor, transformando-a em coisa bela.

Quando isso acontece
a dor se transforma em poema
objeto de comunhão, sacramento.

Rubem Alves

Quando a dor se transforma em poema I


Escrevo para me calar
 para produzir silêncio.
Como numa catedral gótica:
as paredes, as colunas e os vitrais
servem só para criar um espaço vazio
onde se pode orar.

Álvaro de Campos entende que a poesia é isso
uma construção em palavras
em cujas gretas se ouve uma outra voz
uma melodia que faz chorar.

 Rubem Alves

A Felicidade



A felicidade na vida
é já uma coisa tão restrita
e quase convencional
que tirar da vida uma parcela mínima
desse luzente tesoiro, tão ambicionado
e tão quimérico
é a maior das loucuras humanas.

Florbela Espanca

Falo de ti às pedras das estradas



Falo de ti às pedras das estradas
E ao sol que e louro como o teu olhar
Falo ao rio, que desdobra a faiscar
Vestidos de princesas e de fadas

Falo às gaivotas de asas desdobradas
Lembrando lenços brancos a acenar
E aos mastros que apunhalam o luar
Na solidão das noites consteladas

Digo os anseios, os sonhos, os desejos
Donde a tua alma, tonta de vitória
Levanta ao céu a torre dos meus beijos! 

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço
Sobre os brocados fúlgidos da glória
São astros que me tombam do regaço! 

Florbela Espanca

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O Grito



Se ao menos esta dor servisse
se ela batesse nas paredes
abrisse portas
falasse
se ela cantasse e despenteasse os cabelos

se ao menos esta dor se visse
se ela saltasse fora da garganta como um grito
caísse da janela fizesse barulho
morresse

se a dor fosse um pedaço de pão duro
que a gente pudesse engolir com força
depois cuspir a saliva fora
sujar a rua os carros o espaço o outro
esse outro escuro que passa indiferente
e que não sofre tem o direito de não sofrer

se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas

se ao menos esta dor sangrasse

Renata Pallottini

segunda-feira, 18 de setembro de 2017



Não se preocupe com o amanhã...
Deus já está lá.

A Alma dos diferentes



Diferente não é quem pretenda ser.
Esse é um imitador do que ainda
não foi imitado, nunca um ser diferente.

Diferente é quem foi dotado
de alguns mais e de alguns menos em hora
momento e lugar errados para os outros.
Que riem de inveja de não serem assim.
E de medo de não aguentar
caso um dia venham, a ser.

O diferente é um ser
sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é um chato.
Mas é sempre confundido
por pessoas menos sensíveis e avisadas.
Supondo encontrar um chato
onde está um diferente
talentos são rechaçados; 
vitórias, adiadas;
esperanças, mortas.

Um diferente medroso, este sim
acaba transformando-se num chato.
Chato é um diferente que não vingou.

Os diferentes muito inteligentes
percebem porque os outros não os entendem.
Os diferentes raivosos acabam
tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro.
Diferente que se preza entende
o porque de quem o agride.

Se o diferente se mediocrizar,
mergulhará no complexo de inferioridade.
O diferente paga sempre o preço de estar
- mesmo sem querer - alterando algo
ameaçando rebanhos, carneiros e pastores.

O diferente suporta e digere
a ira do irremediavelmente igual:
a inveja do comum; o ódio do mediano.
O verdadeiro diferente sabe que nunca
tem razão, mas que está sempre certo.

O diferente começa a sofrer cedo
já no primário, onde os demais de mãos dadas
e até mesmo alguns adultos por omissão
se unem para transformar o que é
peculiaridade e potencial em aleijão e caricatura.

O que é percepção aguçada em:
"Puxa, fulano, como você é complicado".
O que é o embrião de um estilo próprio em:
"Você não está vendo como todo mundo faz?"

O diferente carrega desde cedo
apelidos e marcações os quais acaba incorporando.
Só os diferentes mais fortes
do que o mundo se transformaram
(e se transformam)
nos seus grandes modificadores.

Diferente é o que vê mais longe
do que o consenso.
O que sente antes mesmo
dos demais começarem a perceber.

Diferente é o que se emociona enquanto
todos em torno agridem e gargalham.
É o que engorda mais um pouco
chora onde outros xingam
estuda onde outros burram.
Quer onde outros cansam.
Espera de onde já não vem.
Sonha entre realistas.

Concretiza entre sonhadores.
Fala de leite em reunião de bêbados.
Cria onde o hábito rotiniza.
Sofre onde os outros ganham.

Diferente é o que fica
doendo onde a alegria impera.
Aceita empregos que ninguém supõe.
Perde horas em coisas
que só ele sabe ser importantes.
Engorda onde não deve.
Diz sempre na hora de calar.
Cala nas horas erradas.
Não desiste de lutar pela harmonia.
Fala de amor no meio da guerra.
Deixa o adversário fazer o gol
porque gosta mais de jogar do que de ganhar.

Ele aprendeu a superar riso
deboche, escárnio, e consciência dolorosa
de que a média é má porque é igual.
Os diferentes aí estão:
enfermos, paralíticos, machucados,
engordados, magros demais,
inteligentes em excesso, bons demais
para aquele cargo, excepcionais, narigudos
barrigudos, joelhudos, de pé grande
de roupas erradas, cheios de espinhas
de mumunha, de malícia ou de baba.
Aí estão, doendo e doendo,
mas procurando ser, conseguindo ser
sendo muito mais.

A alma dos diferentes
é feita de uma luz além.
Sua estrela tem moradas deslumbrantes
que eles guardam para os pouco capazes de
os sentir e entender.

Nessas moradas
estão tesouros da ternura humana.
De que só os diferentes são capazes.
Não mexa com o amor de um diferente.
A menos que você seja suficientemente
forte para suportá-lo depois.

Artur da Távola