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sábado, 2 de junho de 2018
A manhã raia
A manhã raia.
Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta
A manhã é uma coisa abstracta
está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo
é tão belo se chamarmos à manhã
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo
é tão belo se chamarmos à manhã
«Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã
Por isso se não há vantagem
Como o é se lhe chamarmos a manhã
Por isso se não há vantagem
em por nomes errados às coisas
devemos nunca lhes por nomes alguns.
devemos nunca lhes por nomes alguns.
Alberto Caeiro
domingo, 26 de novembro de 2017
Passa uma Borboleta
Passa uma borboleta por diante de mim
e pela primeira vez no Universo eu reparo
que as borboletas não têm cor nem movimento,
assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
no movimento da borboleta o movimento é que se move,
o perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
no movimento da borboleta o movimento é que se move,
o perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.
Alberto Caeiro
domingo, 1 de outubro de 2017
Quando vier a Primavera
Quando vier a Primavera
Se eu já estiver morto
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes
que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte
não tem importância nenhuma
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã
Morreria contente
porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo
quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo
E gosto porque assim seria
mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando
já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Nem sempre sou igual
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés -
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma …
sábado, 13 de março de 2010
Se eu pudesse trincar a terra toda
Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe um paladar,
Seria mais feliz um momento ...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...
O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...
Alberto Caeiro
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
A Janela
Não basta abrir a janela
para ver os campos e o rio.
Não é o bastante não ser cego
para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Alberto Caeiro
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