Vagando em versos

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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Memórias


Vasculhando nas memórias algum assunto
encontrei a carta que eu rabisquei
na capa de um livro:
“pra você”, era o destinatário.
Não sei por que não mandei
talvez não quisesse passar a limpo o passado.
Em letras garrafais eu te dizia:
“acertei o caminho não porque segui as setas
mas porque desrespeitei todas as placas de aviso”.
E achei curioso eu usar essa metáfora
sem nem ao certo saber o que queria te dizer com isto.
E depois de repousadas aquelas palavras
eu percebi quanta coisa eu escrevi pra você
querendo dizer pra mim.
Porque eu jamais chegaria aonde cheguei
se só andasse em linha reta.
Tive que voltar atrás, andar em círculos
perder dias, perder o rumo, perder a paciência
e me exaurir em tentativas aparentemente inúteis
pra encontrar um quase endereço
uma provável ponte: a entrada do encontro.
Você tão ocupado com seus mapas
tão equipado com sua bússola, demorou tanto
fez sinais de fumaça e não veio.
Você simplesmente não veio.
Mas me ensinou a intuir caminhos certos
a confiar nos passos, a desconfiar dos atalhos.
Porque eu estava do outro lado e só.
Sem amparo. Mas caminhava.
E você estava absolutamente equipado com seu peso.
E impedido de andar por seus medos.

A Palavra


Adoro a poesia 
e gosto de descascá-la 
até a fratura exposta da palavra.
A palavra é meu inferno e minha paz.

Noites com Sol



Já vi borboletas voarem 
faltando um pedaço da asa 
e rosas incríveis desabrocharem
 num copo com água. 
E é disso que me nutro 
pra acreditar que a meteorologia 
nem sempre está certa 
e que dias cinzentos 
podem ser prefácios 
de noites com Sol.

sábado, 12 de agosto de 2017

Eu não tenho medo do amor

Eu não tenho medo do amor. 
Eu tenho medo é de amar quem tem medo dele. 
Amar quem teme o amor 
é como se apaixonar 
por uma sucessão de desistências

Minha transparência


Talvez eu nunca tenha
sentido as coisas assim,
tão genuinamente:
a raiva, o amor,
a alegria, a tristeza,
 a ansiedade, o afeto…
As minhas emoções têm emergido
sem qualquer filtro,
sem qualquer disfarce.
E pela primeira vez
eu me permito ficar com elas
dando a cada uma
 a importância que me pedem,
porque elas não me governam,
são apenas emoções,
são a minha transparência.

Descanso



Às vezes é preciso dormir, 
dormir muito. 
Não pra fugir, 
mas pra descansar 
a alma dos sentimentos. 
Quem nasceu com
a sensibilidade exacerbada
sabe quão difícil é engolir a vida. 
Porque tudo, 
absolutamente tudo
devora a gente. 
Inteira.