Vagando em versos

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sexta-feira, 14 de junho de 2019

Postal


Por cima de que jardim
duas pombinhas estão
dizendo uma para outra:
"Amar, sim ; querer-te, não?"

Por cima de que navios
duas gaivotas irão
gritando a ventos opostos:
"Sofres, sim: queixar-me não?"

Em que lugar, em que mármores,
que aves tranquilas irão
dizer à noite vazia:
"Morrer, sim; esquecer, não?"

E aquela rosa de cinza
que foi nosso coração
como estará longe, e livre
de toda e qualquer canção!

Cecília Meireles

domingo, 24 de setembro de 2017

O Mistério do sem fim





No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E no planeta um jardim
e no jardim, um canteiro
no canteiro, uma violeta
e sobre ela, o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

Guns N' Roses - Welcome To The Jungle 

sábado, 9 de setembro de 2017

Leveza


Leve é o pássaro:

e a sua sombra voante
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta
mais leve.

E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante
mais leve.

E a fuga invisível
do amargo passante
mais leve.

Cecília Meireles

domingo, 20 de agosto de 2017

Criança



Cabecinha boa de menino triste
de menino triste que sofre sozinho

que sozinho sofre, — e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente
que de sofrer tanto se fez pensativo
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

Cecília Meireles

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Personagem




Eu só conheço o que não vejo. 
E, nesse abismo do meu sonho

alheia a todo outro desejo
me decomponho e recomponho.

Cecília Meireles

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Voo



Alheias e nossas 
as palavras voam.
Bando de borboletas multicores, 
as palavras voam
Bando azul de andorinhas, 
bando de gaivotas brancas, 
as palavras voam.
Viam as palavras como águias imensas.
Como escuros morcegos como negros abutres,
 as palavras voam.

Oh! alto e baixo em círculos e retas acima de nós, 
em redor de nós 
as palavras voam.
E às vezes pousam.

Cecília Meireles

sábado, 1 de julho de 2017

Timidez





Basta-me um pequeno gesto
feito de longe e de leve

para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...


- mas só esse eu não farei.


Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras distantes...


- palavras que não direi.


[...]


Cecília Meireles


quarta-feira, 17 de março de 2010

Provação

Provação
Agora eu entendo o que é provação.
Provação significa que a vida está me provando.
Mas provação significa também que estou provando.
E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.


Cecília Meireles

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Palavras

Ai, palavras, Ai palavras...


... que estranha potência, a vossa.


Cecília Meireles

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Serenata


Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permita que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho como as estrelas no seu rumo

Cecília Meireles

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Biografia

Escreverás meu nome com todas as letras,
com todas as datas,
— e não serei eu.
Repetirás o que me ouviste,
o que leste de mim, 

e mostraras meu retrato,
e nada disso serei eu
Dirás coisas imaginárias,
invenções sutis, 

engenhosas teorias,
— e continuarei ausente,

Somos uma difícil unidade,
de muitos instantes mínimos,
— isso serei eu,
Mil fragmentos somos, 
em jogo misterioso,
aproximamo-nos e 

afastamo-nos, eternamente,
— Como me poderão encontrar?
Novos e antigos todos os dias,
transparentes e opacos, 

segundo o giro da luz,
nós mesmos nos procuramos.
E por entre as circunstâncias fluímos,  
leves e livres corno a cascata pelas pedras.  
— Que mortal nos poderia prender?


Cecília Meireles